domingo, 7 de fevereiro de 2010

TEMA: SAPATOS

MÁCULA

Ao entrar em casa tiro os meus sapatos.
O hábito é uma proteção.
Penso que a nódoa ficará na rua.
O lar permanecerá imaculado.
A sujeira é exógena.
Eu sou impenetrável!
Em momentos de sobriedade, questiono a minha imaculabilidade.
Não somos naturalmente imundos?
Não nascemos embebidos em sangue, placenta e líquidos amnióticos?
Não somos imediatamente lavados ao nascer?
A água que nos lava higieniza a alma?
Nascemos sujos e embebedados pelas ilusões.
Crescemos e continuamos a nos lavar e a tirar os nossos sapatos.

Júnia Cardoso

TEMA: SAPATOS

Sobre os que não vêm à festa

Algumas pessoas não sabem preservar relações. Não sabem propagar ternura. Não sabem – ou não querem – demonstrar lembrança. E fazem bico quando são questionadas por isso.
Eu realmente não sei (con) viver assim. Preciso de palavras, sentimentos e bons silêncios juntos: presentes que enfeitam a alma. Gosto de ser amado e, mais, de saber que tenho o amor.
Não é necessário bom traje pra entrar em meu baile. Dispenso sapatos. Venham descalços mesmo. Aliás, venham como quiserem! A simplicidade tocando o chão... é isso o que importa.
Admiro as pessoas que se preocupam menos com a própria pele. Gosto das pessoas que confirmam que carinho bom tem que ser demonstrado, propagado, entregue. Principalmente em dias de se apagar velas.

Danilo Filho

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

TEMA: PALAVRAS

Um dia, de repente.

Findaram-se as palavras.
Esvaziaram-se, sozinhos, os frascos de perfume.
Evaporaram, subitamente, toda a quantidade de aroma que continham.
O silêncio veio para fazer sua casa,
Estabilizar o ambiente de dentro do peito.
Fecho os olhos,
Sorrio.
A linha do horizonte já não me mostra mais muita coisa.
Novos ares, outras cortinas,
Uma pessoa.
E faço todo esse rodeio pra confessar,
advogando em seu favor,
que carinho, amor e ternura
são, pra mim,
sinônimos de pequena altura.

Danilo Filho

TEMA: PALAVRAS

SPARKLING CYANIDE

Ela usou as palavras certas para romper com àquelas amarras totalmente tóxicas, igualmente paralisantes.
Tanto as palavras quanto a ruptura.
Foram as palavras que nocautearam seu oponente.
Causaram dor.
Esse não era o sentido real em exprimi-las?
Palavras são conflitos permanentes.
Vitórias idealizadas. Sonhos arruinados.
São histórias que celebram sangues.
Podem até determinar armistícios, mas não têm vocação para causas humanitárias.
Esqueçam que elas podem embalar as noites, amalgamar almas, fomentar romances. As palavras, no final, são as responsáveis pelos equívocos e pelos cianuretos servidos em taças.
Sempre definitivas, irreversíveis, irrevogáveis.

Júnia Cardoso

sábado, 19 de dezembro de 2009

TEMA: TAMANHO

TAMANHO

Ensina a vida: seremos, sempre, menores do que queremos e maiores do que somos.

Júnia Cardoso

TEMA: TAMANHO

O que desenrola

É do tamanho da minha vontade,
Da alegria da acordar ao seu lado,
Da ansiedade pela voz do outro lado da linha
E do beijo virtual.
Do tamanho de uma linha de trem imaginária,
Daquelas que ligam Tóquio à Califórnia,
No mapa mundi chapado que temos na cabeça aos 10 anos de idade.
Da velocidade do vento que passou hoje pela minha janela.
É essa imensidão que existe na distância palpável entre nós.
Não é vazio.
Não é sofrer.
Embora chore por dentro ao ouvir
“Nêgo”
quando não dito no ouvido.
É grande demais o que desenrola dentro.
É do tamanho do inexplicável esse amor que nasce aqui.
E eu só sei ser sim.
Porque seria preciso nascer de novo pra não querer você.

Danilo Filho

sábado, 7 de novembro de 2009

TEMA: BALÕES

Da arte de encher balões

Ploft. Estouro de balões. Não quero falar de festas, mas de balões simplesmente. Dos coloridos, brilhantes, que sobem, descem ou permanecem soltos em pelo ar. Balões que geram desejos. E que, somente por isso, são importantes.
Quando encho um balão, esvazio o silêncio. E isso já me basta. Esqueço das razões e me entrego ao sopro. E me inflo com bolhas de felicidade. Eu, criança, enchendo um balão que me estoura sensações adultas. E desperta desejos secretos que confidencio ao ar, que me renova os ares.
[Ou me traz a falta deles.]
E, assim, me distraio nesse vai e vem de declarações: o balão que me confessa suspiros. Suspiros estes que sopro ao ar, que me infla novamente enchendo de sede meus pulmões. Tudo isso porque confundo sopro com beijo.
[Embora os dois me consumam o mesmo ar.]
“Quer que eu dê o nó?”, me pergunta ela, colocando-se superior por causa dos dois anos a mais em sua idade.
“Consigo sozinho”, respondo eu, mesmo desejando enchê-la de segredos e suspiros. Assim como faço com os balões.

Danilo Filho